MUDANÇAS NO PANORAMA INFECCIOSO DO BRASIL E NO MUNDO

Por dr. Vicente Amato Neto e dr. Jacyr Pasternak

A convivência do homem com seus muitos e mal humorados parasitas não é estática. Eles se adaptam, mudam suas táticas, mutam-se e nós os enfrentamos com alguns truques desleais que nenhum outro animal emprega: por exemplo, vacinas e remédios.

Chegamos à arrogância de imaginar que venceríamos definitivamente uma parte destes inimigos, como fizemos a propósito da varíola. Um "Surgeon General", dos Estados Unidos da América, em 1957, teve a infeliz idéia de dizer em publico – e como deve ter-se arrependido deste infeliz palpite que os americanos denominam "foot in the mouth disease" – que a luta contra os agentes infecciosos era um capítulo encerrado na história da humanidade.

Afirmou, ainda, que dali para frente, a Medicina deveria se preocupar com outros assuntos. Errou feio e, pior do que isto, mesmo em 1957, estava claro que esta guerra entre seres humanos e seus patógenos não será vencida por nós e nunca acabará. O melhor resultado possível é um empate, ou melhor ainda, uma familiaridade razoável. Almejamos que causem algum grau de amolação, sem grandes danos. Se formos levar “a ferro e fogo”, no longo prazo a vitória é deles que têm recursos genéticos, contando com a ajuda do mais poderoso motor biológico conhecido: a seleção natural.

Em alguns dos motivadores de infecções existem pontos fracos que permitem realmente erradicá-los. O vírus da varíola, que citamos como ilustração, fez um erro tático há milhares de anos, quando se especializou em parasitar um único hospedeiro e escolheu este curioso macaco chamado "homo sapiens", ou seja, o homem. Como não possui nenhum outro reservatório, e como a vacina pertinente concede proteção por toda a vida, ele não sobrevive se todo o mundo com o qual mantém contato for vacinado. Foi isto que o liquidou.

Nos três tipos de vírus da poliomielite também figura este calcanhar de Aquiles e podem ser os próximos extintos pela ação do homem. Apesar de sermos a favor da biodiversidade e contra extinções, estas seguramente não provocarão lamentos. Um de nós trabalhou – ficando inadequado dizer isto porque dá para calcular a provecta idade da peça – num serviço especializado em poliomielite quando a doença era comum, almejando ver no curso tão breve da vida médica uma enfermidade passar de epidêmica a rara, de rara a extinta nas Américas e daí erradicada no mundo.

Infelizmente, a maior parte dos vírus, bactérias, rickéttsias, fungos, protozoários e vermes não e tão especializados nem tem nicho ecológico restrito, como os patógenos passíveis de extinção que citamos antes. Grande parte deles sobrevive no ambiente e acomete-nos de vez em quando.

Um bom tipo elucidador é o Vibrio cholarae com história curiosa. A cólera, como doença, foi descrita apenas no começo do século 19, quando ocorreu a primeira pandemia. Provavelmente já existia na Índia anteriormente, mas as descrições de diarréias epidêmicas não permitem dizer se, de fato, era ela a moléstia vigente. O mal correu o mundo várias vezes e no último evento atingiu o Brasil. Está intimamente ligado à pobreza, à falta de água potável, ao relacionamento do homem com águas e brejos e ao não tratamento de dejetos.

A industrialização selvagem na Inglaterra e depois no resto do planeta; o aumento da população na Europa ou na Ásia, ao lado do colonialismo na Mica que gerou horrendas condições de vida às populações aglomeradas européias, principal disseminador da peste urbana, progressivamente menos prevalente, porque perde na luta ecológica contra a ratazana (o rato de esgoto, ou seja, aquele enorme ratão que põe gato para correr quando encurralado). Ao contrário do sociável roedor da Europa, a ratazana é animal territorial e cada um defende seu espaço. Embora as ratazanas tambêm sejam suscetíveis à peste não espalham a infecção com a eficiência dos bandos de ratos que vivem juntos.

A peste, hoje, é um problema pequeno de saúde pública e persiste em locais onde os veiculadores são silvestres. Entretanto, quando as condições sanitárias ficam muitos ruins, quando o homem e o rato convivem intimamente e quando pessoas invadem o espaço ecológico dos animais, acontece de novo a peste, incluindo a urbana.

Foi o que sucedeu na Índia, em Surat e Beed, tão recentemente em 1994. Só que com recursos antiinfecciosos, a mortalidade atribuível à moléstia não é a medieval, quando ela varreu do mapa um terço da população européia.

Na Índia, em situação deplorável, e com o povo em pânico, o que complica muito, o uso liberal de antibióticos, raticidas e pulguicidas fez com que a epidemia desaparecesse mais ou menos rapidamente. A mortalidade muito pequena suscitou a redação de artigos questionando se, de fato, ocorreu lá uma peste. Parece que houve sim, porque isolaram a bactéria de enfermos.

Ficamos pasmos quando no Brasil reaparecem antigas pragas, como a febre amarela ou o dengue. A explicação é simples: aquela doença depende de um ciclo silvático, passando entre macacos e mosquitos do gênero Haemagogus, compondo condição de não ser passível de controle a não ser que tenha lugar a destruição das florestas, configurando opção politicamente incorreta, além de inviável.

Quando a população brasileira aumenta e o número de místicos com ela, dirigindo-se estes à Chapada dos Veadeiros (localizado no norte do cerrado no Estado de Goiás, centroeste do Brasil, a 230 km da capital de Brasília) sem proteção por vacina, paralelamente aos que desejam contatos com extraterrenos do segundo ou do terceiro grau, acabam havendo chances de aquisição do vírus da febre amarela, às vezes, com resultados trágicos. Ainda assim, apesar da enorme população de Aedes aegypti em grande parte das cidades brasileiras, a febre amarela urbana continua ausente deste país.

Os últimos casos diagnosticados são de 1942. Campanhas para extermínio do mosquito, com inseticidas e destruição de criadouros, como pneus vazios e potes de água em domicílios, ajudam mas têm sido ineficientes. O que funciona muito bem é a vacina. Aliás, descoberta aqui neste Brasil mesmo; é extremamente eficiente, propiciando imunidade por, pelo menos, dez anos e, talvez, durante período ainda maior.

A vacinação dos místicos que foram meditar na Chapada dos Veadeiros, em conjunto com outros visitantes atraídos por justificativas válidas ou curiosas, poderia evitar adoecimentos e posterior perigo e o desencadeamento da febre amarela urbana.

Outra coisa que ajuda é o fato da viremia durar muito pouco na evolução da moléstia, de modo que místicos mais místicos ou mais pobres, que viajam com mochila, quando adoecem já ultrapassar o período no qual podem contagiar mosquitos e, subsequentemente, indivíduos suscetíveis.

E o dengue? Bem, este é mais complicado, porque no Brasil houve erradicação do Aedes aegypti muitos anos atrás, mas infelizmente nuestros vecinos de Latino América não agiram da mesma forma. Estes bichos não andam com passaporte e passam fronteiras sem pedir licença.

O aumento da população humana multiplicou o número de potes de água e de outros recipientes, onde os mosquitos se reproduzem. Ainda por cima, condições sociais fazem com que seja muito difícil subir um morro no Rio de Janeiro, que mencionamos apenas ilustrativamente, para destruir criadouros por lá. É preciso, no mínimo, explicar para os varejistas de cocaína (traficantes de drogas que se escondem nos morros da região) o que o trabalhador sanitário está fazendo ali. Estes marginais, além de não facilitarem negociações, utilizam métodos dissuasivos muito convincentes quando não querem visitas governamentais, utilizando-se de armamentos pesados, como metralhadoras AK ou M 16 de alto “poder de persuasão”.

Por outro lado, a prevenção da doença de Chagas é um dos triunfos do nosso sistema de saúde pública. Inicialmente bem combatida no Estado de São Paulo, hoje esta parasitose está satisfatoriamente controlada na maior parte do Brasil, em virtude de uma série de razões, muitas das quais não são médicas.

O Estatuto da Terra, que os militares, em um momento de lucidez, obrigaram os latifundiários a “engolir”, isto é aceitar por força de lei, levou direitos sociais ao campo e fazendeiros imediatamente despediram colonos, acabando com o ecotipo da casa de pau-a-pique (casa construída de barro e madeira coberta de palhas e correlatos).

A urbanização do país retirou o homem do convívio com os triatomíneos e o  inseticida de persistência ambiental fez o resto. A transmissão vetorial da doença de Chagas está praticamente extinta a não ser em novos ecossistemas, realçados pela Amazônia, onde diferentes vetores estão procurando os invasores humanos, já que seu alimento predileto e habitual (o homem) está ficando escasso.

Mas enquanto velhas pragas vão sendo controladas ou até convivem conosco, outras pandemias neste mundo globalizado acabam nos atingindo. A AIDS é um excelente exemplo. Aliás, a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) é uma adicional demonstração de eficiência do nosso sistema público de assistência médica. Se atender alguma doença bem, e está mesmo, são dados a todos os doentes que quiserem assistência médica, remédios e recursos de laboratório, de maneira descentralizada e organizada, com manuais cuidadosamente escritos que resumem consensos de especialistas. Isto até parece a Suécia. Pena que aconteça só quanto a esta enfermidade.

Onde queremos chegar? As doenças infecciosas no Brasil, como no resto do mundo, vão viver sempre em comum conosco. O uso indiscriminado de antibióticos gera germes cada vez mais resistentes aos tratamentos. Novas doenças provavelmente aparecerão à medida que o homem, cada vez mais, invada florestas e diferentes locais onde provavelmente não é bem aceito e, afinal de contas, enquanto a explosão demográfica não terminar, em sendo a espécie humana uma das mais abundantes no planeta, é um excelente prato para outras.

Temos que nos organizar para enfrentar os males infecciosos como estruturamo-nos apropriadamente para enfrentar a infecção pelo HIV, que poderia servir de paradigma a propósito do atendimento médico. Se o Estado cuidasse de todas as moléstias como cuida desta, pouca gente iria procurar os tais convênios e seguros-saúde acessível a uma minoria da população.

BIOGRAFIAS DE DR. VICENTE AMATO NETO

Médico infectologista é professor titular do Departamento de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade São Paulo, tendo sido secretário da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo nos anos 80.

DR JACYR PASTERNAK

Médico infectologista, é professor-doutor da Faculdade de Medicina da Unicamp – Universidade de Campinas (SP)