“As letras noturnas, as letras enormes acesas no topo do grande edifício falando de coisas vulgares dos homens – cerveja, automóvel, sabão, dentifrício – ensinam as estrelas (Ó alfas! Ó betas!) a ler. As estrelas são analfabetas”. Com este pensamento, publicado com o nome de Luminoso, Guilherme de Almeida procura fazer uma comparação das estrelas com a humanidade que vê tanto anúncio pelos muros, pelos edifícios, pela tv, pelas revistas e jornais, nos ônibus e carros, nas placas de sinalização, na roupa que se veste, nas embalagens dos produtos que se consomem na alimentação, na saúde, na higiene, na limpeza. Enfim, em tudo que está à volta do ser humano existe uma palavra escrita. Milhões de letras, juntas aqui e ali, repetidas ou não, de diversas formas, tamanhos e cores. E a humanidade é analfabeta! Assim como as estrelas em Luminoso. Sim, porque uma grande maioria no mundo todo não consegue decifrar o alfabeto, ler as palavras, compreender o significado contido neste amontoado de letras. É o ver sem enxergar! E as letras estão em todo lugar, dançando, luminosas e opacas, apagando e acendendo, piscando, deslizando para lá e para cá nos anúncios luminosos que estão nos altos dos edifícios, nas paredes, nos muros, seduzindo, provocando, pedindo para serem decifradas, compreendidas, interpretadas! O Rotary sensível a esta carência humanitária decretou a década de 2003 a 2012 como a Década da Alfabetização. O primeiro do segundo século da história de nossa organização sob o lema Dar de Si Antes de Pensar em Si, dará ênfase à alfabetização – juntamente com a água, a saúde e a fome – e, em especial, a imagem pública do RI. Sabemos que através da alfabetização atinge – se o desenvolvimento pessoal, forma – se a consciência social que é o mais legitimo instrumento que leva o ser humano a uma libertação e humanização. Alfabetizar para ler o mundo, para adquirir uma voz autêntica que saiba ligar as palavras à realidade do mundo. É libertar-se da cultura do silêncio, do medo, do escuro, para a cultura da libertação, da luz. Juliana Martins, monitora de uma classe de alfabetização de adultos que o Rotary Club de Cotia Granja Viana abriu em parceria com a ONG – Conselho Municipal de Educação, Cultura e Ação Social e o Condomínio Residence Park declarou recentemente: “como alfabetizadora, percebo os anseios de quem retoma os estudos já adultos. O estudo exige uma atitude séria e curiosa na procura de compreender as coisas e os fatos que observamos. Estudar exige disciplina e não é fácil porque estudar não é apenas repetir o que o professor diz, mas criar e recriar. Por isso, as atividades em sala de aula precisam ser diversificadas e motivadoras, tornando o processo de ensino e aprendizagem mais significativo. Se entre dez deles, apenas um conseguir dominar a técnica da leitura e da escrita, ainda assim ficaria feliz porque tive a certeza de que o mundo perdeu um analfabeto”. Também o presidente desta ONG, José Bertuol declarou em entrevista ao Rotary: “A ONG Conselho Comunitário de Educação, Cultura e Ação Social de Cotia, SP, Brasil, oferece-nos um exemplo de como promover parcerias em prol da alfabetização. Esta entidade já alfabetizou no município mais de 10 mil adultos - de 14 a 80 anos - em parceria com o IBEAC - Instituto Brasileiro de Estudos e Ação Comunitária - e empresas da região e ganhou o Prêmio da UNESCO, como o melhor curso de alfabetização. Recebi um livro do Presidente Bertuol com textos dos alunos de alfabetização e de lá extrai o de Ronaldo Silva que escreve: “A minha necessidade é o estudo. Não tive oportunidade de estudar porque tive de trabalhar muito cedo para ajudar a minha família. Hoje eu sei o quanto faz falta o estudo. Todos podem ter direitos iguais perante a lei, mas sem o estudo somos mais diferentes e discriminados. O que mais quero é continuar os estudos para conseguir respeito e dignidade para viver feliz ““. Li uma entrevista na Revista Brasil Rotário, - do companheiro e ex- diretor de RI - Hipólito Ferreira - sobre o programa oficial de alfabetização do Rotary, o Lighthouse, que já foi implantado em Minas Gerais pelas mãos deste companheiro. “Acredito que o Rotary, após a conclusão da Campanha Polio Plus, passará a compartilhar com os governos municipais a preocupação a respeito do desenvolvimento e dos direitos civis o que será um canal positivo de influência dos rotarianos que colocam a ética à frente de tudo que fazem.” Esse programa de alfabetização não precisa de fundos em larga escala para ser executado. Diferente do combate à pólio, a alfabetização pode ser realizada localmente. Basta começar e irradiá-la para se atingir o objetivo a que cada comunidade se propõe. Parece fácil, mas essa é uma prioridade que passa pelos governos, sem os quais nada se pode fazer em larga escala. Por isso será necessário trabalharmos em duas frentes: junto aos governos e aos nossos Serviços à Comunidade. Órgãos internacionais como o Bird e a ONU certamente encontrarão no Rotary um parceiro com imparcialidade, inteligência, generosidade e visão para executar a tarefa. Tenho certeza de que os responsáveis pela parceria com o MEC tiveram a felicidade de levar ao governo a bem-sucedida metodologia de alfabetização Lighthouse, que poderá ser potencializada no país. Temos hoje um Centro de Formação de Multiplicadores pronto para formar monitores a custo zero. Isso é apenas uma parte de um Programa 3H, e está à disposição de qualquer um dos RCs brasileiros. Os resultados do Lighthouse não somente alfabetiza, mas também trabalha na construção de valores que são indispensáveis para formar o caráter de futuros cidadãos. A cesta básica mata a fome, o vale-transporte leva ao trabalho, tudo isso atende às necessidades básicas imediatas do homem. A alfabetização, no entanto, atende às necessidades de longo prazo ao forjar o caráter de um povo e diminuir as desigualdades sociais. Para nós, rotarianos, a alfabetização é um outro nome da paz que tanto almejamos”. O governador 2005–2006 do distrito 4610, Darci Kirst, convidou-me a coordenar a Comissão Distrital de Alfabetização. Fiquei muito feliz porque como professora alfabetizadora e jornalista sou uma admiradora deste projeto e uma lutadora em prol da alfabetização há muitos anos. Acredito que esta é a única forma de proporcionar qualidade de vida às pessoas, levando – as a enxergar, a ver, a compreender o significado daquele emaranhado de rabiscos que os cercam, é através da aquisição da leitura e escrita. O analfabetismo ainda continua sendo um dos flagelos da humanidade. Precisamos mobilizar a sociedade e os governos para acabar com este flagelo no mundo! O Rotary já começou! BIOGRAFIA DE LIGEIA BENÍCIA DE ALMEIDA STIVANIN Professora alfabetizadora, pedagoga e jornalista, é autora dos livros “Amar, Pensar e Agir”, da Editora do Brasil e “Meninos e Meninas”, da Editora Contexto. Foi presidente do RCSP–Bandeirantes na gestão de 1976–77 e do RC de Cotia-Granja Viana na gestão de 2004-2005, para o qual presta Assessoria de Imprensa desde 2000. Faz parte da Comissão Distrital de Alfabetização, tendo implantados cursos de alfabetização em 16 clubes brasileiros. |