ÁGUA: ESCASSEZ OU EXCESSO DE DEMANDA?

Por Monika Naumann

Atualmente o termo “escassez de água” está “na moda”, e o II Encontro dos Rotários dos Países de Língua Oficial Portuguesa não foge a essa regra. Contudo, convido a uma reflexão sore a utilização do termo “escassez”, uma vez que o volume de água de uma região é relativamente estável, com exceção dos casos em que a degradação ambiental (desflorestamento, por exemplo) e mudaças no ciclo hidrológico daí decorrentes são muito evidentes. Portanto, é mais apropriado abordar essa questão sob o ponto-de-vista da utilização desse recurso natural em níveis superiores à capacidade de sustentação.

Convém observar como os diferentes níveis de demada são perceptíveis através da ótica dos preços desse recurso natural. Em São Paulo, por exemplo, paga-se atualmente cerca de 0,50 € por litro de água mineral engarrafada e 0,40 € por m3 de água encanada proveniente do abastecimento público. Pois bem, no Brasil, já percebemos a tendência para o aumento dos preços desse recurso, e nos demais países da PLOP essa tendência certamente é a mesma. Assim, necessitamos urgentemente de uma intensificação de esforços e de investimentos públicos e privados direcionados a diminuir a demanda e aumentar a oferta por esse recurso natural. Para tanto, é necessário que os principais fatores que atuam sobre a disponibilidade da água sejam objeto de políticas públicas e privadas apropriadas. Dentre esses fatores, destacam-se: o aumento da população humana, que exige quantidades crescentes de água para sua manutenção. Durante o século XX, por exemplo, a população brasileira aumentou cerca de 10 vezes;

· O desperdício na utilização da água. No Brasil, por exemplo, cerca de 40% da água tratada para consumo doméstico é perdida só no caminho entre as estações de tratamento e o consumidor final;

· A erosão, devida à exploração inadequada dos solos, e que causa o assoreamento de rios e lagos;

· A diminuição das áreas recobertas por florestas. No decorrer do século XX, nosso planeta perdeu a metade de sua área de florestas;

·                     A lógica da “economia de mercado”, atualmente em voga inclusive em países comunistas (?) como a China, que fomenta o lucro imediato (para os “empreendedores”) e a conseqüente socialização (“externalização”) de custos ambientais e sociais.  Por outro lado, essa mesma lógica de mercado propugna o “enxugamento” do Estado, que tem cada vez menos recursos humanos e materiais à sua disposição para enfrentar a crescente deterioração ambiental. Acabamos de ver um exemplo desse processo nos Estados Unidos - caso do Furacão Katrina, que teve seus danos potencializados pela recusa em aceitar-se a existência de mudanças climáticas devidas à influência antrópica, por um lado, e pelo corte de investimentos necessários para a manutenção de diques.  

Em suma, constatamos que em muitas partes do mundo já existe uma sobre-exploração desse recurso natural. Assim, se não forem gerenciados de maneira apropriada, fatores como os acima mencionados forçosamente conduzem a crises cada vez mais agudas, que fatalmente acabarão por desembocar em conflitos armados. 

BIOGRAFIA DE MONIKA NAUMANN

É Engenheira Florestal e mestre em Gerenciamento Ambiental pela União Européia, atualmente atuando como consultora em projetos ambientais, florestais e de créditos de carbono. É rotariana do RCSP-Cantareira.